FIL traz 2ª edição do projeto Recortando Palavras

Projeto de produção de fanzines entre alunos da rede pública é realizado virtualmente

05/07/2021 - 09:07:18

O Recortando Palavras, projeto que conta com a participação dos alunos de escolas da rede estadual de Ribeirão Preto e região, tem mais uma edição na FIL de 2021 – Feira Internacional do Livro de Ribeirão Preto. Neste ano, o projeto é oferecido de forma completamente on-line com a produção de fanzines inspirados em textos selecionados de Mia Couto, autor homenageado da Feira do Livro, que acontecerá entre os dias 20 e 29 de agosto. A criação dos zines auxilia na formação intelectual e no crescimento dos estudantes. O encontro dos alunos participantes do projeto com o autor acontecerá no dia 23 de agosto, das 8h30 às 10h.

O Recortando Palavras nasceu em 2019, como uma das diversas atividades que compõem a Feira Internacional do Livro e conta com a participação de alunos das escolas estaduais inscritas no projeto. Sua realização só é possível, desde o início, graças ao apoio e parceria da Diretoria de Ensino da Região de Ribeirão Preto. Os coordenadores do projeto, junto à equipe da Fundação, são os professores Arnaldo Neto e João Francisco Aguiar, e o jornalista Angelo Davanço, para quem, uma das inspirações para a criação do Recortando foi “a participação de fanzineiros da cidade no evento [Feira do Livro] desde 2015”.

Com o auxílio dos professores e coordenadores capacitados meses antes da realização da FIL, os alunos se inspiram no autor homenageado de cada ano (em 2019, o escritor brasileiro Ignácio de Loyola Brandão e, em 2021, o moçambicano Mia Couto) para produzirem os chamados fanzines. Estes são feitos a partir da releitura de textos selecionados por meio de ilustrações, colagens, fotografias e diversos outros recursos, com muita imaginação e criatividade. Ao final do projeto, os fanzines produzidos são mostrados ao escritor homenageado, que também é tema de um concurso de caricaturas, que permanecem expostas durante o período de realização da Feira. Para a edição de 2021, a exposição será on-line e estará dentro do site Livro Vivo (www.livrovivorp.com).

“O Recortando Palavras tem uma característica muito interessante, porque por si só ele é um projeto multiplicador; embora a gente tenha um número oficial de alunos participantes, este ano, em torno de mil alunos, o alcance é muito maior do que isso”, diz Arnaldo Neto a respeito do impacto do projeto. “Tal perspectiva apenas salienta a importância de projetos como esse, que proporcionam aos estudantes – e também aos professores – experiências transformadoras”, completa.

Os fanzines como instrumento pedagógico

A palavra fanzine surgiu como resultado da contração dos termos em inglês fanatic e magazine, ou seja, consiste basicamente em uma revista feita por fãs. É um meio de comunicação alternativa que existe desde a década de 1930, originado nos Estados Unidos, e que faz o uso livre da criatividade.

De acordo com o professor Arnaldo Neto, os fanzines permitem que o projeto Recortando Palavras se amplie infinitamente, pois muitos professores adotam o formato e acabam por usá-lo como ferramenta pedagógica em outras atividades. É isso o que diz Márcia Regina, coordenadora da E.E. Romualdo M. de Barros, a respeito de sua experiência com os zines: “estamos trabalhando não só com o Recortando, temos outro projeto, o Pequenos Escritores, com a professora de literatura, que também está usando os fanzines, trabalhando Machado de Assis com os alunos. Dá para aproveitar muita coisa, é uma estratégia bastante rica”, afirma.

Além de estimular a criatividade dos alunos, a produção dos fanzines também proporciona aos estudantes uma experiência única e autoral, conforme explica o professor João Francisco, pois os induz a pesquisar e organizar as informações que irão utilizar, o que lhes permite absorver conhecimento e desenvolver autonomia. “Há diversos benefícios em relação à formação dos alunos”, afirma a professora da E.E. Dr. Guimarães Júnior, Vanessa Paulini. “Os alunos desenvolvem a expressão de suas ideias por meio da linguagem verbal e não verbal, relacionando desenhos ou outras imagens a textos escritos, por meio de soluções criativas. Além disso, o trabalho em grupo também é potencializado”, complementa.

“Quando a gente pensa no zine como ferramenta pedagógica e quando a gente pensa no Recortando Palavras, é um projeto que coloca o aluno não como espectador passivo de uma situação, ele é um protagonista, porque é a sua própria produção, é o aluno autor”, salienta Arnaldo Neto. Segundo ele, o Recortando Palavras é, acima de tudo, uma forma de descobrir talentos, pois permite que jovens que nunca escreveram antes tenham contato com o projeto e descubram em si um poeta, um cronista, um ilustrador, um quadrinista. Nas palavras do professor, “o zine é uma ferramenta pedagógica de longo alcance, de múltiplas possibilidades”.

O Recortando Palavras em meio à pandemia

A crise sanitária enfrentada pelo país devido à pandemia de COVID-19 impediu que o Recortando Palavras e a própria Feira do Livro fossem realizados em 2020. Entretanto, em 2021, cancelar o evento não foi necessário: a Fundação encontrou uma maneira de promover as oficinas de forma totalmente virtual. Desde a comunicação com os professores e alunos até a mostra dos fanzines ao autor homenageado – tudo foi planejado para ser 100% on-line e seguro.

“Com a pandemia todos nós tivemos que nos reinventar, nos adaptar. Por conta dela, nós usamos o recurso do vídeo, tivemos que fazer vídeos tutoriais, que não são a mesma coisa, mas também são uma ferramenta muito útil, muito interessante” diz o professor Neto a respeito da mudança na forma de instruir os alunos sobre os fanzines. Além disso, o diálogo entre os coordenadores do Recortando e os professores das escolas participantes também segue a mesma linha: foram criados grupos no aplicativo de mensagens WhatsApp para sanar as dúvidas importantes acerca dos fanzines. “Vamos disponibilizar no site Livro Vivo um rico material de apoio aos professores composto de livros sobre fanzines, publicações independentes, documentários, filmes e conteúdos on-line”, acrescenta João Francisco.

Contudo, mesmo com todas as mudanças, ainda é possível dizer que o objetivo do Recortando Palavras está se cumprido e que a natureza do projeto se manteve. Isso porque, ainda que a maior parte das interações ocorra de forma on-line, os alunos ainda assim podem ter contato com seus fanzines ao produzi-los, de forma que a experiência pedagógica não seja prejudicada. “Como os fanzines vão ser digitalizados e mostrados em PDF, é triste não poder pegar o material e ter o contato. Fica meio impessoal, mas acho que não perde a essência do projeto, acho que continua, porque o aluno foi lá, recortou, desenhou, pintou, então a essência mesmo, do processo do trabalho, não se perde”, explica a professora Márcia.

Ainda, embora o formato atual da Feira do Livro não seja o presencial, como em todas as outras edições, realizá-la de maneira on-line também possui seus pontos positivos: esta é a primeira vez, em 20 anos, que as oficinas poderão ser visitadas e acessadas por pessoas do mundo todo, o que confere ao Recortando Palavras e a outros projetos um caráter internacional que quebra barreiras e permite a expansão da cultura. “Creio que as experiências de difusão de conhecimento têm sido fantásticas neste período triste de pandemia que estamos vivenciando. Se perdemos o calor humano, a emoção do encontro presencial, ganhamos em recursos tecnológicos e em alcance”, diz o jornalista Angelo Davanço a respeito das mudanças na edição de 2021 da Feira e do Recortando. “Acredito que no futuro, eventos culturais e educativos, como o Recortando Palavras e a própria Feira do Livro, só terão a ganhar ao unir o modelo híbrido para a sua execução”, finaliza.

Autor: usuario07