‘Estamos vivendo uma distopia como nunca se teve’, diz Zuenir Ventura

26/04/2021 - 21:04:51

O debate de encerramento da primeira noite (25/04) de atividades do Revolução Poética: Festival de Ideias produzido pela Fundação do Livro e Leitura de Ribeirão Preto, contou com a participação do jornalista e escritor Zuenir Ventura para uma abordagem do tema “Sobre as novas utopias”. Junto ao jornalista, participaram outros três debatedores: o Prof. Dr. pela USP representando o convênio USP – Alma, Marcos Câmara de Castro, a jornalista Yara Racy e a arte educadora Priscilla Altran, sob mediação da mestre de cerimônias Dulce Neves, jornalista e presidente da Fundação.

O escritor integrou o debate através do aplicativo de reuniões Zoom, enquanto os debatedores e a mestre de cerimônia estavam presencialmente no Instituto SEB – A Fábrica, seguindo todos os protocolos de saúde e segurança orientados pela Organização Mundial da Saúde (OMS).

Zuenir iniciou sua fala citando uma declaração do autor Edgar Morin: “a chegada do Coronavírus nos lembra que a incerteza permanece um elemento inexpugnável da condição humana. Antes, a gente achava que existia um progresso certo, agora o futuro é uma angústia”. O escritor e jornalista lembrou que, coincidentemente, o último domingo marcou os 47 anos da Revolução dos Cravos, que derrubou o regime ditatorial do Estado Novo, em Portugal. A data tem um forte significado para o palestrante, já que ele foi o primeiro jornalista brasileiro a estar presente na cobertura da Revolução, o momento mais utópico da época, segundo sua avaliação. “Na verdade, os capitães conseguiram aquilo que os hippies não conseguiram, que era levar a flor ao poder”, comentou.

O corpo como lugar de utopias

Para o escritor, atualmente há uma distopia como nunca foi vista. “Um acúmulo de crises de saúde, política, econômica, ética, social e ambiental. Aliás, para muitos, a utopia do século XXI é a sustentabilidade”, explicou Zuenir. Ele ainda completou que quando não há possibilidade de mudar o mundo, fazemos transformações em nossos corpos, como o uso de silicone, tatuagens, piercings ou outros acessórios. “Este é o único espaço para a utopia”.

Citando o escritor português Boaventura de Sousa Santos, que deu o título “O século XXI começa agora: da pandemia à utopia”, em seu mais recente livro, Zuenir trouxe para o debate outra citação: “Os séculos nunca se iniciam, do ponto de vista sociológico e político, no primeiro dia do primeiro ano. Mas começam com um acontecimento que os marcam”. O jornalista explicou que, no século XIX, este marco foi a Revolução Industrial; no século XX, foi a Primeira Grande Guerra Mundial e, depois, a Revolução Russa. Agora, o século XXI começa após a pandemia.

Na obra de Boaventura, referenciada por Zuenir, há dois possíveis futuros: o que muda e o que continua normal. “Este último seria algo distópico, porque vamos assistir a mais pandemias”, refletiu.

Possibilidades utópicas

Em seguida, o debate foi aberto aos participantes da noite. A jornalista Yara Racy questionou Zuenir se o momento atual da sociedade não seria uma revolução do ser. O escritor respondeu que não se pode ter uma utopia pessoal, pois ao sair de casa acabamos nos deparando com a realidade nas ruas, como crianças cheirando cola. “O futuro do Brasil jogado na rua. Como você pode viver uma utopia coletiva se, individualmente, você tem essa vivência?”, questionou o escritor.

O professor Marcos Câmara de Castro argumentou se não seria mais viável pensar a utopia em comunidades autônomas, para que possam conviver ao mesmo tempo e, uma respeitando a outra, para não resultar em guerras. Para Zuenir, essa é a grande utopia atual. “É muito difícil você dizer de uma utopia possível quando você tem a situação que temos hoje. Não existe diálogo quando você tem um poder que despreza as comunidades; temos regiões discriminadas; a Amazônia está pegando fogo e há a anti-ciência”, destacou o jornalista.

A arte-educadora Priscilla Altran perguntou ao jornalista se ele consegue observar a aceleração de processos sociais neste momento de crise sanitária e econômica e a resposta foi negativa. “Eu não me lembro de ter vivido um momento como este. Vejo a mudança em 2022, mas nem isso posso garantir”, relatou Zuenir. Questionado sobre sua utopia atual, o escritor deixou uma mensagem: “eu já realizei tudo, mas seria mais feliz, se antes de morrer, eu encontrasse este país mais justo”.

Música e Dança

Na abertura do debate com Zuenir Ventura, o público assistiu ao espetáculo “Conglomerados Utópicos, Distópicas Paisagens” do projeto Alma (Academia Livre de Artes e Música de Ribeirão Preto), com a participação de alunos de seu corpo experimental de dança. “Com este espetáculo, trouxemos ao palco a dureza de certos temas de nosso tempo, a aspereza de certos elementos, pois a arte, ao contrário do entretenimento, tem a função de trazer o espectador para a consciência, afastá-lo da alienação. A arte é a expressão daquilo que há de mais verdadeiro em nossas vidas, mas que não vemos, ou enxergamos de forma embaçada, por causa do cotidiano”, diz Lucas Galon, que compôs a música e o vídeo-arte que acompanham a coreografia, assinada por Marisol Gallo.

Programação
O “Revolução Poética – Festival de Ideias” foi contemplado pelo edital ProAc Expresso LAB 40/2020 criado através da Lei Aldir Blanc. Trata-se de um projeto realizado pelo Governo do Estado de São Paulo, por meio da Secretaria de Cultura e Economia Criativa, Instituto SEB e Fundação do Livro e Leitura de Ribeirão Preto.

O festival terá atividades até terça-feira (27) e, nesta segunda-feira (26), contará com a participação do escritor Alexandre Ribeiro, às 19h30, e a professora, Manuela Salau Brasil, às 21h30, além de apresentações artísticas da dupla Tânia Alonso e Thais Foresto, às 19h, e da De Lucca Circus, às 21h. Os interessados em participar da atividade podem acessar as redes sociais da Fundação do Livro e Leitura de Ribeirão Preto (Youtube e Facebook) ou a plataforma digital (www.fundacaodolivroeleiturarp.com/). As atividades são abertas e gratuitas ao público.

Autor: usuario07